VIVEMOS A OLHAR PARA BAIXO?

look down
Estou no metro. Ia tirar o Kindle da mala quando reparo nas pessoas à minha volta. As quatro pessoas mais próximas de mim estão todas de cabeça baixa, a mexer em smartphones. Sim, confere: até a senhora de 60 e tal anos está entretida com um Samsung Galaxy. Ninguém tira os olhos dos ecrãs, nem quando anunciam a próxima estação, nem quando o metro pára e duas delas se levantam, ainda com os olhos nos ecrãs e saem da carruagem sem tirar os olhos de lá. Parece que não têm medo de tropeçar.

Reparem: agora também eu estou a olhar para um ecrã, a escrever isto no SimpleNote. Mas levanto a cabeça a cada frase, cada vez mais fascinada com este mundo vivido em ecrãs. Ainda não peguei no Kindle, mas também não o vou fazer agora. Acho que os ecrãs trouxeram um bom refúgio a quem, nos transportes, não gosta de olhar para os outros. Olhar pela janela do metro não é interessante, olhar para os outros torna-se creepy, mas olhar para um ecrã salva-nos. Até podemos estar só a jogar Candy Crush (ainda se joga Candy Crush?), como o rapaz que vai no banco ao lado. Mas fingimos que estamos muito ocupados, a fazer coisas no nosso smartphone.

Aquilo que me choca, no entanto, não é este comportamento nas pessoas no metro. É, pelo contrário, este comportamento quando estamos com outras pessoas, com os nossos amigos. Contra mim falo, que também verifico o telemóvel várias vezes por dia. Umas vezes porque quero ver as horas (não uso relógio por isso o telemóvel é o meu relógio), outras para ver se recebi alguma mensagem ou se perdi uma chamada da minha mãe e muitas vezes por mania de verificar as notificações das redes sociais... pelo menos quando tenho os dados móveis ligados ou tenho wi-fi.

No entanto, odeio fazê-lo quando estou com outras pessoas e o objectivo é estarmos a conversar. Será que já não sabemos conversar cara a cara? Será que precisamos mesmo de um refúgio tecnológico quando estamos com os nossos amigos? Gosto das pessoas que sabem deixar os ecrãs de lado quando estão na presença de uma conversa real. Talvez haja cada vez menos conversas assim, mas é por isso que valem cada vez mais.

A minha paragem é a seguinte. Vou parar este texto. É que eu tenho medo de tropeçar à saída.


7 Theories So Far

  1. Isto é uma conversa que eu tenho muitas vezes com as pessoas que me são mais próximas. Eu evito ao máximo usar o telemóvel a partir do momento em que estou fora de casa (e dentro de casa, quando estão lá outras pessoas). Não faz sentido eu ir a caminhar e a olhar para um ecrã quando o mundo real é tão mais interessante, muito menos quando estou rodeada de pessoas à volta de uma mesa. É raro eu fazer isso e odeio que o façam comigo. Somos seres humanos, vivemos da comunicação e do contacto com outros e, assim de repente, parece que estamos a começar a perder isso. Tenho pena. Mesmo. E por isso insisto sempre com as pessoas que me são mais próximas para olharem mais para cima e apreciarem a beleza que estão a perder em vez ficarem a apreciar o ecrã de um telemóvel.

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  2. Penso muitas vezes nisso quando vou nos transportes. Eu sou o tipo de pessoa que gosta exactamente de olhar para os outros e imaginar como será a vida deles e o que terão passado. Ou simplesmente inventar histórias na minha cabeça porque sim - e também gosto de poupar a minha querida bateria, tbh. Mas hoje em dia, independentemente da idade e do género, anda tudo agarrado aos pequenos ecrãs, é mesmo incrível. Por vezes dou por mim a pensar como seria no tempo em que estas tecnologias não existiam.

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  3. Excelente texto, Sofia. As vezes que já pensei sobre isto...as tecnologias acabam por ser o nosso refúgio quando estamos desconfortáveis, e isso percebo - embora eu tenha umas saudades imensas de andar de transportes públicos precisamente porque adorava ver as pessoas e os seus comportamentos. Mas também traz a vantagem de nos desligar do mundo quando não devíamos. Eu faço o esforço consciente de não estar sempre colada ao telemóvel, mas confesso que começo a ficar farta deste mundo em que nem um jantar se livra da companhia do nosso ecrã de estimação...

    Jiji

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  4. Adorei a forma como nos trouxeste este tema e o laivo de humor na publicação. É difícil discordar de ti nesta temática. A maioria das pessoas não desliga dos ecrãs e este é também um pormenor a que tenho atenção nos transportes. Contra mim falo, pois verifico várias vezes o telefone. Mas quando estou com outras pessoas, raramente o faço, pois gosto de estar a 100% numa conversa.

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  5. bela reflexão, quando estou com amigas desligo o telemóvel já por causa disso.

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  6. Adorei a publicação, Sofs (como é habitual!). E não podia concordar mais, vejo muito isso quando vou de comboio para as aulas. Eu sou o tipo de pessoa que olha para a janela (com fones nos ouvidos e finge que está num vídeo aaaaaa) ou que observa as pessoas, tal como fizeste hoje.

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  7. Esta reflexão é bonita por ser tão real, apesar de estes comportamentos serem tão 'feios'...

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