ESSA COISA ASSUSTADORA CHAMADA DESEMPREGO

O que aprendemos sobre nós e sobre os outros quando estamos no desemprego
Aprendemos muitas coisas enquanto estudantes, mas não aprendemos a ser desempregados nem a lidar com o desemprego e eu gostava de o ter aprendido. Desemprego, só por si, sempre foi algo que me assustou. Sempre soube que não ia ser uma daquelas pessoas afortunadas que, durante toda a vida, mal têm de enfrentar este bicho. No entanto, sempre tive aquela ingenuidade de achar que não ia passar assim tanto tempo nesta condição. Sabem como é: imaginava umas semanas, nada de extraordinário, nada de desesperante. Mas a vida não é sempre como a imaginamos, não é?

Quando nos vemos licenciados é sempre algo agridoce. Por um lado, é excelente porque terminámos um ciclo. Mas, por outro, é horrível porque, muitas vezes, nos vezes sem algo certo para fazer, sem um ponto de orientação. Quando saiu a última nota e fiquei oficialmente licenciada tive dois segundos de felicidade seguidos de horas de vontade de chorar. Estava há alguns dias a responder a anúncios de emprego sem ser chamada para entrevistas, mas estava naquele momento da vida em que não estamos licenciados nem desempregados: estamos de férias. Foi assim que levei o meu Verão: estou de férias mas continuo a procurar algo. E continuei.

Durante o Verão fui a entrevistas e enviei dezenas de e-mails, uns a responder a anúncios, outros de candidaturas espontâneas. Às vezes tinha respostas, outras vezes nem isso. Quando tive respostas essas eram sempre de momento não estamos a contratar ou só temos interesse em estágios curriculares e não profissionais. Mas foram muitos mais os e-mails sem resposta. Dia após dia comecei a desesperar. Não tanto por não ter respostas mas porque as pessoas à minha volta não percebiam que hoje em dia não se arranja trabalho de um dia para o outro. Ouvi tantas vezes mas não arranjas trabalho? com aquele tom de desdém, de quem acha que é impossível tal acontecer, que no Verão tive tudo menos férias. Só me apetecia chorar quando me perguntavam quando é que arranjava trabalho. Sentia que o problema era eu, que a culpa era minha. Não era e não é.
O que aprendemos sobre nós e sobre os outros quando estamos no desemprego
No final de Agosto fui a uma entrevista e fiquei com o lugar. Fui a essa entrevista porque estava farta de responder às mesmas perguntas, de ver as mesmas reacções, de ouvir as mesmas bocas. Talvez não devesse ter ido. Fui trabalhar um mês e meio para uma rádio local do distrito da Guarda e foi a pior coisa que podia ter feito. Sim, a experiência vale para o currículo mas também valeu para eu ter odiado. Senti-me desrespeitada enquanto profissional e enquanto pessoa. Senti que gozaram com a minha cara. Conduzia mais de oitenta quilómetros por dia e chegava a casa de mau humor, com vontade de berrar com toda a gente e com mais vontade de chorar do que quando não tinha trabalho. Fui contratada sem nunca ter assinado um contracto e isso deu-me liberdade para, no dia em que cheguei a casa a chorar, depois de conduzir umas centenas de quilómetros, farta daquilo, ter decidido desistir. Nunca me pagaram. Deram-me desculpas e eu acabei por dizer que não queria aquele dinheiro para nada porque sabia que ia demorar semanas a vê-lo... se é que o ia ver. 

Num mês e meio de trabalho vi situações que me revoltaram. Vi atitudes tudo menos profissionais. Vi pessoas tomarem decisões sobre mim e o meu cargo sem nunca me consultarem e, depois, ficar a saber das mesmas por outras pessoas. Aprendi muito sobre mim e sobre os outros com isto. Aprendi, especialmente, que há muita gente egoísta e sem noção do que é ser um líder numa equipa. Nem sei, aliás, se essas pessoas saberão o que é uma equipa e qual o papel de um líder. E então vim-me embora.

Estou desde o meio de Outubro sem trabalhar. Precisei de uns dias para me recompor da forma como fiquei depois de trabalhar da forma que trabalhei. Não me reconhecia em nada. O sentido de humor tinha desaparecido, assim como a vontade de fazer algo, de escrever, de ler... não era eu. No início tinha vergonha de dizer o que se tinha passado porque me senti ingénua e usada. Depois percebi que simplesmente tinha de tentar e que o importante agora é saber que posso ajudar alguém a evitar uma situação assim. Quando me comecei a recompor a Dama faleceu por isso não foi uma recuperação fácil e demorei algum tempo até voltar ao maravilhoso mundo da procura de emprego. Acho que ainda está pior agora do que estava no Verão.
O que aprendemos sobre nós e sobre os outros quando estamos no desemprego
Enquanto procuramos emprego não procuramos emprego. Procuramos sempre respostas para a pessoa que somos e que queremos ser. Pensamos muito nas experiências passadas antes de sermos capazes de falar delas abertamente. Depois deixamos ir, ignoramos por completo, e vamos à caça. Não é fácil procurar emprego hoje em dia. Há umas semanas enviei um e-mail a perguntar condições de uma oferta que vi algures. Nunca me responderam e a pergunta era simples: é remunerado ou não? Nem uma resposta.

Ainda há pessoas que têm visões romantizadas da situação. Dizem-me que podia ir para o sítio X ou para a rádio Y, sempre nomes grandes, como se fosse só dizer que queria e ser logo aceite e ganhar logo dinheiro. Acho que só quem está por dentro de situações destas (ou na primeira pessoa ou com pessoas próximas) percebe que nem sempre é fácil. E não estou a falar de pessoas como os nossos pais ou mais velhos. Houve gente pouco mais velha do que eu a ter a mesma ideia de facilidade e romance e isso chocou-me.

Quando procuramos emprego procuramos sempre algo que nos preencha por nós e não pelos outros. Vemo-nos com dez euros na conta bancária e sentimos mais vergonha do que nunca quando temos de pedir dinheiro aos pais. Antes também pedíamos mas agora parece mais doloroso. Queríamos ter comprado prendas a alguém no aniversário ou no Natal e não o fizemos porque não tínhamos dinheiro para o fazer. Temos tempo para nós, para ler, ver séries e filmes, para fazer nada, mas damos por nós a ter vontade de ter menos tempo. Eu tenho a sorte de trabalhar afincadamente num blog diariamente e sentir que é algo que me ocupa o tempo e me dá gosto. Mas depois penso em quem não tem projectos assim. Se até eu dou por mim a pensar que nunca vou conseguir um trabalho, que nunca vou conseguir voltar para Lisboa, viajar pelo mundo, etc., etc., o que não pensarão as pessoas que se vêem sem ter que fazer? Às vezes não temos sequer vontade de sair da cama porque, na verdade, não temos que fazer.

Posso dizer-vos que o desemprego é assustador, sim, mas acho que não podemos perder a esperança. Sim, a esperança é algo muito relativo. Mas, se não acreditarmos que vamos encontrar algo e que vale a pena investir em nós e na nossa formação, de que nos serve a vida? Mais vale desistir de vez e ficarmos a vegetar em casa para o resto da vida. Temos de acreditar, perseguir sonhos, arranjar sonhos novos, ir à luta e só sair de lá se ganharmos. O desemprego mete medo mas, para mim, mete ainda mais medo não ter sonhos e objectivos aos quais nos possamos agarrar.


9 Theories So Far

  1. Imagino que esteja a ser complicado, especialmente para ti que gostas tanto de estar ocupada e de "fazer algo". Mas foi como disseste no teu último parágrafo... é preciso ter esperança. E eu acredito que vais encontrar algo à tua medida que te faça muito feliz. És uma pessoa incrível e sei que profissionalmente também o serás. Keep going, gurl <3

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  2. Entendo o que estás a passar porque encontro-me na mesma situação. Entendo o facto de teres deixado o teu trabalho anterior porque já passei por um que não gostava e só me apetecia sair dali. Espero que encontres algo que te satisfaça rapidamente. Força!

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  3. Percebo perfeitamente muitas das coisas que relatas aqui. Desde a busca pelo primeiro emprego - que parece nunca chegar - até a finalmente entrar no mercado e depois não ser aquilo que imaginávamos. Como me acompanhas nas redes sociais, sabes que partilho muitos dos teus sentimentos. Aliás, acho que muito mais gente partilha. Não saímos preparados para lidar "socialmente" com o mercado de trabalho, nem com o desemprego, chefes maus, etc. Ao mesmo tempo, encontramo-nos num dilema em que queremos aproveitar a vida, conhecer o mundo e mudá-lo, e parece que o que nos resta para toda a vida adulta é estar oito horas fechado num escritório, ao computador. Também gostava de falar sobre este tema, já que fiz a resolução para 2017 de voltar a escrever mais. O importante é sentir que não estamos sozinhos e que há sempre esperança :)

    (Desculpa, não sei escrever comentários curtos!)

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  4. Também já passei por isso. Sei o que é. Logo depois de me licenciar só arranjava estágios e achei que os devia fazer. Depois fiquei alguns meses a achar que não arranjar nada. Mas é quando não esperamos que as coisas acontecem. É importante mantermo-nos activos, continuar a sair, a estar com pessoas, a ouvir gente e ver sítios. Nada de ficar em casa, isso é importante!
    Bjs e muito boa sorte para ti :)

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  5. Percebo tão bem o que estás a sentir neste momento, Sofia! Passei por isso duas vezes; uma quando acabei o curso e me sentia perdida à procura de um emprego qualquer, e entre 2012 e 2013, quando estive um ano inteiro desempregada. Quando estamos nessa situação, parece que nada aparece nem vai aparecer, especialmente quando somos assim, inquietas, e temos verdadeiramente vontade de trabalhar.

    Mas continua à procura (óbvio, eu sei) e continua a dar atenção à tua escrita e ao teu blog. No meu caso, o blog ajudou-me imenso, não só porque me manteve ocupada, mas porque ajudou a que tivesse uma boa presença online, o que na minha área é importante.

    Força, miúda! :D*

    www.joanofjuly.com

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  6. Obrigada por partilhares isto connosco! A sério!
    Eu estou desempregada à uns meses, desde o Verão mais ou menos. Não sou licenciada, mas tenho curso técnico de comunicação, marketing, r.públicas e publicidade. É obvio que queria algo na minha área. Mas já me convenci que isso é, maior parte das vezes, impossível. Até agora só tive más experiências. Ou porque não me pagaram, ou porque gozaram com a minha cara até não poderem mais. Enfim, já aprendi que o que conta é termos saúde, porque emprego... bem, é mais sorte do que outra coisa.

    The eyes of a Mermaid
    Instagram

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  7. Olá. Estou exatamente na mesma situação que tu, e revejo-me por completo no que escreveste. Pior é quando as pessoas a tua volta te levam mais abaixo e te "olham" como se a culpa fosse tua. É muito frustante, mas tento sempre manter-me otimista e acreditar que melhores dias virão :) Beijinhos

    http://dailyprinces.blogspot.pt/

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  8. Sei bem do que falas, passei pelo mesmo, por um estágio horrível com "patrões" ou o que raio aquilo eram horríveis e embora não lhes deseje mal, também não lhes desejo bem nenhum. São pessoas vazias e tenho muita pena de haverem imensas assim.
    É provável que a tua cabeça ande já a bater nas paredes, que não tenhas vontade de sair, de ir sequer sentir o sol na rua, porque a "vergonha" de viver às custas dos pais quando já não deverei ser suposto existe e nós quando não temos trabalho sentimos isso, embora a palavra correcta não seja essa.

    A universidade diz e gaba-se que nos prepara para o mundo do trabalho, mas todos sabemos que não. Não nos explica que tentar encontrar trabalho é difícil, que não devemos aceitar qualquer coisa em troca do nosso trabalho, que não devemos rebaixar-nos a tudo o que nos dizem e que responder a anúncios de emprego muitas vezes não nos leva a lado nenhum.

    Mais uma vez, fofa, tem calma. Tudo se vai resolver, não desesperes, não desanimes, não desistas. Seja na tua área ou não, o que importa é ser um bom trabalho, com boa gente e onde te sintas bem. A área pode esperar uma oportunidade certeira, já a vida nem por isso :) força!

    let's do nothing today

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  9. Como te compreendo... encontro-me na mesma situação, não é nada fácil! Mas temos de pensar sempre positivo e nunca desistirmos daquilo que mais desejamos.

    beijinhos,
    http://blog-in-shades-of-blue.blogspot.pt/

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