BORN TO RUN: SPRINGSTEEN POR SPRINGSTEEN

Book Review: Born To Run, by Bruce Springsteen [2016]
Este livro demorou sete anos a ser escrito. Quando chego ao fim do livro e, nos agradecimentos, leio isto logo na primeira fase quase tenho vontade de celebrar e dar um enorme self-five! Passei mais de metade do livro a dizer para mim mesma que este livro devia ter demorado muito tempo a escrever. Não pelas 570 páginas, nada disso. Mas porque não entendi o Born To Run, do boss Bruce Springsteen, como uma simples autobiografia. Apresenta a biografia de Springsteen escrita na primeira pessoa mas é muito mais do que isso. Ao longo destas mais de 500 páginas, Bruce Springsteen deixa-nos entrar no mundo dele de uma forma incrível e nota-se logo nos primeiros capítulos que este livro não foi escrito a quente. Muito pelo contrário. Consegui dizer desde início que ele deveria ter escrito, deixado o texto repousar e depois regressado para meditar sobre o que tinha escrito e, por fim, tirar conclusões e permitir-nos ter acesso a alguns dos seus pensamentos.

Cresci, por assim dizer, a ouvir Bruce Springsteen. A Dancing in the Dark, a Born in the USA e a Born To Run fazem parte do meu imaginário desde há tanto tempo que não consigo precisar. Tenho uma memória de estar numa viagem de carro, não sei com quem nem para onde, e estar a tocar a Streets of Philadelphia na rádio e parecer que a música se adequava de forma perfeita à viagem. No entanto, estranhamente, sabia muito pouco sobre ele. Apercebi-me disso quando ele veio a Portugal em Maio, para o Rock in Rio. Uns meses depois saía esta autobiografia, a oportunidade perfeita para ficar a conhecer mais sobre ele.

Book Review: Born To Run, by Bruce Springsteen [2016]

Born To Run, editado em Portugal no final de Setembro de 2016, é a autobiografia de que o mundo precisava e não sabia! Pareceu-me um livro sincero, em que o autor se abre realmente e nos conta as coisas como elas são, o bom e o mau, o sucesso e a falta dele. E o Springsteen faz isso. Ao longo do livro refere algumas vezes que sempre se esforçou e tentou estudar para ser um melhor escritor, para poder ter letras com qualidade, como tem, e acho que esse esforço também se nota neste livro. Apesar de a tradução ter algumas questões que me chatearam, consegue-se realmente distinguir esse facto e não se perde o ritmo de escrita original.

Em Born To Run acompanhamos o crescimento do Bruce, a vida numa casa pequenina, sem aquecimento. Descobrimos a música com ele, sentimos aquela vontade de ter uma banda e vê-la funcionar bem. E nunca lemos só factos, nada disso. Temos ideias bem estruturadas, imagens mentais e percebemos que, ao escrever a sua história, Springsteen não se limitou a debitar o que aconteceu mas optou por se demarcar sempre desse passado e mostrar o que aprendeu com ele, como cresceu e como foi influenciado por tudo o que lhe ia acontecendo.

O Born To Run trouxe-me algo que adoro: saber como cada álbum ou cada tema começa a ser pensado, o que inspira cada momento, o porquê de aquele álbum existir assim, a composição como uma forma de contar histórias sobre o que rodeia quem compõe. Acho isso extremamente interessante. Para mim um álbum não pode ser só um álbum, não podem ser só músicas vazias. Um bom álbum conta boas histórias, tem boas histórias na sua origem. E percebi que com o boss também acontece o mesmo, até quando essas histórias estão ao fundo da nossa rua ou mesmo à nossa frente.

Algo também interessante foi ver a luta de uma vida contra fortes depressões de que Springsteen sofre, tal como um receio natural de terminar da forma que o seu pai terminou, com a mente a dominá-lo por completo. Não fazia ideia de que o Springsteen sofria com depressões e acho que isso o fez tornar mais humano aos meus olhos. Só quem já lidou de perto com depressões pode compreender o quanto a nossa mente nos limita e saber realmente o que se sente. Infelizmente, consegui compreender muito mais sobre isso do que seria de esperar. Mas foi, de certa forma, bom. Acho que ainda há uma espécie de preconceito à volta de problemas de nível psíquico e alguém como o Bruce Springsteen falar do assunto e quebrar esse preconceito é importante: pelos preconceituosos, pelos que lutam contra estas doenças, pelos que têm alguém próximo a lutar com estas doenças. Obrigada, the boss!

Gostei muito deste livro. Ri com ele, chorei em dois ou três capítulos e compreendi a história e a discografia do Springsteen de uma forma diferente. Aliás, sempre que vinha um capítulo sobre um álbum em específico, no final do capítulo eu parava e ia ouvir o álbum, quase que redescobrindo o que a música tinha para me contar. Foi muito bom, muito bom mesmo.


TítuloBorn To Run
Autor: Bruce Springsteen
Editora: Elsinore
Ano: 2016
Nota ASW: 10/10



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