'TENS CADA VEZ MENOS AMIGOS'

Amigos: menos e melhores.
Num primeiro segundo, confesso que fiquei ofendida. No segundo a seguir, passou-me. Afinal, ela tem razão. Claro que ela tem razão. Quando a Sara veio cá passar uns dias, a minha mãe estava a falar connosco e disse, já não me lembro a que propósito, que eu tinha poucos amigos. No primeiro segundo fiquei realmente ofendida. O que raio queres dizer com isso? Tenho tantos! Mas depois percebi que não tenho. Nunca tive, mas tenho cada vez menos. Há uns dias voltei a constatar o mesmo, desta vez em conversa com a Lyne. Mas afinal o que é feito deles? Para onde é que eles desapareceram? Será assim tão mau ter cada vez menos amigos?

Este ano deixei de usar o termo melhor amigo(a) quando o assunto é os meus amigos. Também comecei a ter dificuldade em aplicar o termo amigo(a) a pessoas que tinha de identificar de alguma forma e não sabia bem como. Leio muitas vezes que vamos perdendo amigos com a idade e a verdade é que há mais de um ano que o tenho vindo a sentir. Os amigos que ficaram desde há um ano, sete ou oito meses, têm sido os mesmos, o que é bom. Mas pergunto-me o que aconteceu aos outros. A vida, claro. O que aconteceu foi a vida.

Os meus amigos a sério, que vão sabendo coisas da minha vida, com quem vou falando todas as semanas (alguns todos os dias), são poucos. Não há ninguém que saiba tudo da minha vida, ou quase tudo, vá. E o pior é que, este ano, já houve. Decidi que a partir dos 22 não guardaria ressentimentos destas pessoas e não voltaria a procurá-las. Não é só com rapazes que fazemos figura de parvas, sabem? Com aqueles amigos que saem da nossa vida e nós continuamos a procurar, mesmo quando percebemos que já não somos amigos, também o fazemos.

Às vezes temos de deixar as pessoas ir. Custa-nos, oh, se custa! E dói para caraças, quase como quando nos partem o coração (porque, na verdade, o fazem). Mas nós sentimos mais falta deles do que eles nossa, então para quê insistir? Se vos fizer sentir melhor lembrem-se daquela frase feita: deixa ir; se voltar é teu, se não voltar então nunca te pertenceu (ou algo parecido).

Os meus amigos estão em Lisboa. Já não tenho amigos daqui, que vêm cá ao fim-de-semana e exigem cafés e saídas. Os meus amigos comprometidos continuam a sê-lo e continuam a ser meus amigos. Os meus amigos vivem a 300 e tal quilómetros de mim e arranjam forma de vir aqui ver-me. Os meus amigos mandam-me mensagens de vez em quando a perguntar se tenho comido, se tenho dormido e se estou bem, porque querem mesmo sabê-lo. Os meus amigos sabem o que aconteceu à minha família durante este ano, sabem estar presentes, sabem atender o telemóvel quando é preciso, sabem quando têm de me dar tempo e sabem dar-me tempo sem me abandonarem. 

Tenho cada vez menos amigos, mas, sinceramente, quem é que precisa de amigos que nos abandonam quando a vida deles está a correr bem e a nossa não?


6 Theories So Far

  1. Que engraçado, ontem também me apercebi que cada vez menos aplico o termo amigo/a. Cada vez menos acho que faz sentido. Há pessoas a quem o chamava e facilmente me trocam quando já não precisam de nada de mim.
    É triste Sofia, mas a tua conclusão é tão verdadeira.
    Tenho os amigos que me enchem, que querem realmente saber de mim, que me mandam uma mensagem no final da semana simplesmente a desejar um bom fim de semana ou a dizer para sair, que não perdem uma oportunidade para me dar um abraço, que me ligam com boas novas e com menos boas novidades.
    Para quê ter muitos se não há qualidade na amizade?

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    1. Tocaste no ponto fundamental: "Para quê ter muitos se não há qualidade". É exactamente o que penso. É triste (e custa) ver que deixámos pelo caminho pessoas que um dia julgámos serem praticamente família mas fazemos o nosso "luto" e seguimos em frente. Não podemos ficar presos a pessoas tóxicas :)

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  2. Penso que nunca li um texto que se encaixasse tão bem no que se passa actualmente na minha vida. Quando olho para os amigos que tinha há um ano atrás fico perplexa e triste porque nunca pensei que em tão pouco tempo o meu leque de amigos reduzisse tanto...Mas com isto eu tenho aprendido que de facto a palavra "amigo" não pode ser utilizada com qualquer pessoa. Faço por cultivar novas amizades e manter as que ficaram comigo, porque acredito que essas é que me fazem bem. Se o resto se foi embora por algum motivo foi... E o resto, é só o resto e não é de restos que se faz a vida, certo?

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    1. O que importa é sempre quem fica. É triste pensar que confiámos tanto em alguém que nos "deixou" mas não se pode fazer nada...

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  3. Os amigos são aqueles que te surpreendem pela positiva e que te apoiam mesmo quando estás mal... tb tenho poucos e são poucos aqueles que querem saber de mim, mas como tu disses se a nossa vida corre mal e a deles corre bem, eles já não querem saber de nós

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  4. Mas que texto certeiro! Parece que quanto mais velhos, mais facilmente compreendemos o que é um verdadeiro amigo. E é sempre muito triste quando alguém se transforma num mero desconhecido, apenas porque não se deu ao trabalho de apostar tanto quanto nós. Há alturas em que precisamos MESMO de seguir em frente e esquecer os outros. Por muito doloroso que seja, por vezes.

    A Vida de Lyne

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