há pessoas difíceis de esquecer

hard to forget
Há uns meses, numa saída com amigos, conheci um rapaz. Giro, com barba, interessante. Na realidade, eu já o conhecia profissionalmente, mas nunca tínhamos sido apresentados. Aquele era o primeiro dia em que falávamos e estava a ser excelente. Quanto mais falávamos mais ele parecia interessante, mesmo quando o tema de conversa passou a ser vinhos. Talvez não saibam mas eu só bebo vinho em sangria (e é só quando a sangria está decente) porque eu odeio vinho. Eu disse isto ao rapaz, o que desencadeou toda uma conversa sobre como ele tinha aprendido a gostar de vinho. Eu numa conversa de vinhos? Sim, demasiado para mim, mas, com uns copos em cima e com ele, aquele tema não parecia assim tão mau. Mais uma vez, com uns copos em cima e com ele, quase não me lembrava do verdadeiro rapaz da minha vida. A primeira vez em que falei assim desse rapaz foi, curiosamente, nessa saída. Primeiro com uma rapariga do grupo e, depois, com este rapaz com quem estava a falar de vinhos. Até à data, aquele era um assunto no qual eu não tocava (e sobre o qual só voltei a falar vários meses mais tarde).

Sinceramente, e com a certeza de que estava ali solteira, sozinha, na boa, com álcool a mais, continuei a conversa, as trocas de olhares, ri com as piscadelas de olho... por muito que houvesse uma pessoa na minha vida, essa pessoa era só uma crush, não estava a acontecer nada de mal e, mesmo que a crush viesse de há mais de um ano (muito tempo, eu sei... muiiiiiito tempo), aquela era uma noite diferente. Nas ruas daquele sítio onde tínhamos escolhido sair, agarrei-me ao braço dele e a conversa sobre vinhos transformou-se em conversa sobre lesões musculares (porque eu aleguei que, se não me agarrasse a alguém, ia cair graças àquelas bebidas todas) e, depois, sobre coisa nenhuma. A cada palavra, mesmo que eu já não me lembre de metade, ele tornava-se cada vez mais interessante. Até quando ele disse as palavras que, uma hora e tal depois, me fizeram recuar, ele parecia interessante.

Acho que dá para perceber que tanta conversa acabou por desenrolar em algo sem conversa, não é? Ali estava eu a receber o melhor beijo da minha vida, com um rapaz que era muito do que eu queria, quando percebi que aquilo não podia continuar porque, embora esta noite tivesse dado ideias em contrário, o mundo não era só feito de nós os dois. Havia outras pessoas, pessoas das nossas vidas que iriam ficar magoadas. Ou, melhor, pessoas da vida dele que iam ficar magoadas. Tal como já disse, do meu lado não havia impedimentos reais.

A noite impecável acabou ligeiramente arruinada. Voltei a encontrar o rapaz em três ou quatro outras ocasiões, uma ou duas em trabalho, outra num momento importante da vida de um amigo em comum e outra numa saída conjunta, mais ou menos com o mesmo grupo. Nas quatro vezes, o ambiente foi o mais awkward que possam imaginar. Na primeira, no entanto, ele pareceu realmente ficar contente por me ver. Nas outras foi demasiado estranho, não conseguíamos sequer dizer mais do que olá, tudo bem? No início incomodou-me, porque ele parecia mesmo um rapaz interessante, mas depois deixou de me importar. Sabem aquele cliché de as pessoas aparecem na nossa vida por uma razão? Pronto, este rapaz apareceu na minha vida por um motivo: para me fazer perceber o quanto gostava do outro rapaz. No entanto acho que ele devia ter feito a mesma avaliação e ter percebido que eu surgi na vida dele para lhe mostrar o quanto ele não gostava da outra pessoa. Ele lá saberá, não é?

Gosto, no maior sentido da palavra, de uma outra pessoa e ele sabe isso, mas acredito cada vez mais que os sentimentos, por muito semelhantes que sejam, podem ter dimensões diferentes. A verdade é que este rapaz, que mudou a minha vida numa noite, fez muito mais do que isso. Deu-me a conhecer uma versão de mim que eu não conhecia, fez-me perceber onde é que estava realmente o meu coração e mostrou-me que é possível cometer erros que nunca serão realmente erros, daqueles em que só nos arrependemos de não ter errado mais. Este rapaz ainda tem, mesmo depois de tantos meses, uma parte de mim. Porque me mostrou que as pessoas como ele são difíceis de esquecer. De vez em quando, vejo-o. Não lhe digo nada mas tenho orgulho nele e lamento que ele não tenha usado a minha presença na vida dele para fazer mudanças como eu fiz.

Aqui há dias, estava a rever algo que escrevi para ele (e nunca lhe disse) e lembrei-me do porquê de ter havido logo ligação entre nós e do porquê de ele me ter feito perceber o quanto gostava da outra pessoa na minha vida, mas não sem antes perceber que também gostava dele, só que numa dimensão que nunca poderia ser parte da realidade. Há pessoas que entram na nossa vida de uma forma estranha, quase pressionada, e ficam, por mais que haja motivos para não ficarem. Ficam porque não há como saírem. Ficam e mostram-nos diariamente aquilo que somos por causa delas. Deixam-nos de coração cheio mas também conseguem fazer-nos sentir completamente vazios. Erraram connosco mas não nos fizeram sentir culpa. Traíram connosco mas nunca o confessaram. Ferimos-lhes o ego mas elas conseguiram aumentar o nosso. Há pessoas que entram na nossa vida e se tornam difíceis de esquecer, por tudo o que são, por tudo o que passámos com elas e porque são inevitáveis.

Nós somos inevitáveis e vamos continuar a cruzar-nos por aí, no meio daquele grupo que testemunhou tudo e nem se apercebeu. Vamos cruzar-nos e continuar a pensar nos ses. Há pessoas difíceis de esquecer, mesmo quando não sabemos porquê. Da próxima vez, vou tentar não rir com a escolha do outfit. Da próxima vez, vou tentar lembrar-me do quanto gostei de ti. Da próxima vez, vou agradecer-te o facto de me teres feito perceber o quanto gosto dele. Há pessoas difíceis de esquecer.


2 Theories So Far

  1. Uau ! É uma grande verdade mesmo,há pessoas que por mais que queiramos ou não , nós não as conseguimos esquecer. São pessoas que nos marcaram quer a sua passagem tenha sido curta ou longa. São pessoas com as quais só ficam marcadas porque aprendemos algo com elas e isso é bom. Aprender com os outros. Adorei este teu desabafo, genuíno e só tenho a dizer uau

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  2. Mas que grande desabafo. Identifiquei-me um bocado porque a maior crush que tive durou cerca de 5 anos. Foram dias bons, que se tornaram terríveis devido à sua dimensão. E é como dizes, há pessoas mesmo impossíveis de esquecer!

    A Vida de Lyne

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