foi assim que esta história se perdeu, mas ainda bem que me aconteceste.

Para ti,

Quando era pequena eu escrevia muitas cartas. Fui deixando de o fazer. Agora, para mim, escrever uma carta é um acto cada vez mais isolado. Mas, quando escrevo uma carta, sei que é a sério, a valer, sei que é obrigatório fazê-lo e que não há nada mais intimista do que isto de escrever para alguém. Mesmo que nunca venhas a ler isto.

Ainda há pouco falei de ti. Arrumei o teu assunto na minha vida há uns dias. Compreendi-me e compreendi-nos a um nível que, até então, estava a ser inatingível. Sei que nunca precisarás de ler esta carta porque, sejamos sinceros, nunca voltarás a estar perto deste lugar. Mas, ainda assim, achei que devia dizer-te tudo aquilo em que te irias meter.

Suponho que conheças a "Fix You", dos Coldplay. Bem, era isso que te esperava. Juntares bocadinhos que ainda estão perdidos e colá-los com super cola. Encontrares as feridas e curá-las. Era isso que tinhas de fazer. Tinhas de vir curar-me. Era isso que te esperava. Um mar de feridas, de traumas, de cicatrizes... e de memórias felizes. 

Tenho a certeza de que irias achar estranho o facto de eu não ser pessoa de sair à noite, quando o que conheceste de mim foi o lado de dêem-me vodka e até músicas horríveis eu danço. Talvez não compreendesses o facto de eu não andar de mota. E certamente não compreenderias o facto de eu estar a dizer-te isto, o facto de eu ter necessidade de meter em palavras tudo aquilo que me dás, tudo aquilo que não me dás. Há em mim todo um mundo que terias de explorar. Todo um nível de complexidade que, se formos bem a ver, é mais simples do que eu quero fazer parecer. Como é que lidarias com tudo?

A melhor coisa que me disseram faz parte de um livro: não digas que não consegues, tu consegues tudo. Só quero que saibas que és grande por dentro e vais ser grande para o mundo inteiro. Sabes por que é que isto influencia esta carta? Porque a pessoa que o disse foi a pessoa que melhor me conheceu até hoje. Tu irias conhecer tudo o que essa pessoa conheceu... e se no final não concluísses o mesmo que ele? E se para ti eu não fosse grande para o mundo inteiro? Ainda bem que não nos metemos nisto.

Aquilo que sei de ti leva-me a concluir que somos ímanes. Não sabemos nada um do outro mas atraímo-nos como ímanes. Eu sempre gostei de brincar com ímanes. Acho giro aquilo de saber que, a determinada distância, aqueles dois objectos se vão unir, contra tudo e contra todos. Eles unem-se e é preciso uma força enorme para os separar. Nós somos ímanes. Feliz ou infelizmente, há uma força enorme a separar-nos. Se lhe juntasses um copo, talvez não fosse assim tão simples.

Mas agora é simples. Repara que parei de tentar dizer-te o que te esperava. Não há espaço para mais ses. É o problema das pessoas: vivem de ses, vivem de medos, de fantasmas e de perguntas. É assim que as grandes histórias se perdem. Foi assim que esta história se perdeu. Mas ainda há um se por revelar. Se fosse de outra forma, se fosses outra pessoa, se eu fosse outra pessoa, se fosse noutra altura... se eu soubesse o que sei hoje, agora, não tínhamos ficado como ficámos. Porque dentro deste mundo inteiro para o qual disseram que vou ser grande há um espaço para o teu mundo, para querer conhecer o teu mundo. De todas as questões que me fazes levantar, a única importante agora é: que lugar gostavas de ter tido neste meu mundo? 

Não leves a mal escrever-te assim. Eu gosto de ti. Mas conheço tão pouco do que há para gostar. E é assim que tem de ser. Porque se fecharam as janelas, porque se fechou a porta. E os nossos mundos agora estão separados. De vez em quando aproximam-se, como a Terra e o Sol, mas ambos sabemos que demasiado próximos ia ser o caos, o apocalipse. E ninguém quer trazer o caos para esta equação. Fica cada um no seu cantinho. Acho que a piada desta história está aí: as histórias que não aconteceram nunca poderão ter finais tristes. Nós vamos ser sempre aquela história que não é arruinada. Diz lá que não é bom? 

Se estivesses a ler isto, já estarias a ficar cansado. Desculpa. Entusiasmo-me demasiado a escrever. Sabes o que é bom nisto tudo? Mais uma vez, embora não te tenhas metido nisto, conseguiste compor uma parte de mim que estava meio avariada. Obrigada. Agora tenho a certeza de que ainda sei escrever cartas destas, incompreensíveis, incompreendidas, demasiado estranhas para qualquer pessoa que não saiba como é que eu sou. Vemo-nos daqui a uns dias. Já sabes como é: sorriso rasgado, olhares envergonhados e a certeza de que há coisas que nem às paredes podem ser confessadas. Ainda bem que me aconteceste. 


8 Theories So Far

  1. Adorei! Adorei mesmo! Escreves super bem e tenho a certeza de que transmitiste tudo nesta carta :)

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  2. Lindo, lindo, lindo! Tu escreves cada vez melhor, miúda, e eu fico tão feliz por poder acompanhar a tua evolução!
    Beijinho*

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    1. Já te tinha dito mas muiiiiiiito obrigada, a sério! ❤️

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  3. És daquelas pessoas que me conseguem inspirar a um nível altíssimo, sabias? Adoro os teus textos, adoro o facto de andarem à ronda da temática "amor", sinto que quando os leio, estou mesmo a ouvir-te falar sobre o assunto... É por estas e por outras que vale a pena abraçar a evolução e adaptá-la ao nosso ser. Se continuares assim, hás de chegar muuuuito longe!!

    Beijinhos!
    avidadelyne.blogspot.pt

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    1. Muiiiiiiiiito, muiiiiiiiiiiiiiito obrigada! Fico tão feliz ao ler o teu comentário! A sério! É tão bom ler coisas destas!

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  4. Claro como água...tão bom de ler! Que bela carta.

    Jiji

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